sexta-feira, abril 10, 2009

DASLU...

A digníssima senhora Eliana Tranchesi - conhecida como "mama Daslu" na cúpula da organização mafiosa que empresta o nome à alcunha carinhosa já mencionada - recebeu a pena de noventa e quatro anos e meio por formação de quadrilha, falsidade ideológica e descaminho -importar ou exportar mercadoria sem os devidos pagamentos de impostos (ufa!).
Ouvi muita gente questionando a sentença:
- Quase 100 anos por sonegar imposto?
- Enquanto há assassinos que estão na rua em menos de 10 por "bom comportamento"!
Não nego que o argumento - a primeira vista - possui seus méritos. Entretanto (sempre há um entretanto), nem tudo que reluz é ouro (somente as torneiras dos banheiros da Daslu).
Levando-se em consideração uma pena mínima de quatro anos para o roubo de um milhão de reais de uma pessoa (aos advogados de plantão: desconsiderem "agravantes", "atenuantes", "insignificância do delito" ou qualquer outro artifício jurídico para justificar uma pena excessiva ou branda demais), agora imagine que alguém roube um milhão de reais de 640 pessoas. Não seria justo aplicar a pena mínima vezes o número de pessoas lesadas? Pois bem, o valor sonegado pela Daslu foi de 640 milhões de reais.
Claro, este é o cálculo de um leigo (como alguns amigos advogados vivem lembrando).
Vamos ver a condenação sob a lente da "justiça":
- formação de quadrilha (1 a 3 anos de prisão)
- descaminho consumado (1 a 4 anos) - cometido seis vezes, sendo que a pena pode ser dobrada por uso de meio aéreo
- descaminho tentado (1 a 4 anos) - cometido três vezes
- falsidade ideológica (1 a 5 anos) - cometido nove vezes

A soma das sentenças acima é de 108 anos. Admitindo que nem todos os delitos foram condenados com pena máxima, até que 94 anos e meio foi uma sentença razoável.
Um terceiro ponto de vista:
Ao sonegar 640 milhões a Daslu roubou quase 200 milhões de brasileiros. Podem me dizer: Ah, mas se esse dinheiro chegasse aos cofres públicos seria roubado. Admitamos que 50% do total "sumisse", ainda assim restariam 320 milhões que poderiam ser convertidos em postos de saúde, escolas ou até mesmo para o maior programa de compras de voto já feito (caso não estejam captando a mensagem, serei mais explícito: Bolsa Família).
O fato é que a "brincadeira" dos "capos tupiniquins" da Daslu custou vidas, futuros e presentes de milhares de pessoas.
Torçamos que o exemplo seja seguido, que não fique apenas nesta única condenação. Quem sabe este "surto de justiça" chegue por aqui? A "Cidade Morena" bem que precisa de um olho aberto em algumas organizações de telecomunicações paraenses...

segunda-feira, abril 06, 2009

Literatura e "literatura"

Após uma exaustiva maratona de correção de provas consegui um tempo para ler. Mal comecei e veio a idéia: uma crônica sobre Literatura e "literatura"; espero que fique clara a intenção de não ofender, bem como a de não agradar...

Segue a dita.

Muita gente esquece que um romance não é apenas uma história, na verdade a diferença entre a boa e a má literatura reside neste pequeno detalhe: a boa literatura conta uma história e nos delicia com uma combinação de palavras que toca alma (ou pelo menos nos dá um prazer visual); enquanto a má literatura apenas conta uma história (quando muito).

Esclarecimento: Quando digo "literatura" entendam como "romance".

Segue.

Uma vez me disseram que exemplos são mais eficazes que conceitos, portanto:

"Uma névoa úmida vagaava, desamparada, dos vales para o cimo da montanha, parecendo um espírito atormentado buscando inutilmente o repouso. Uma pegajosa e fria névoa, que se propagava com lentidão pelo ar em ondas sucessivas como as de um mar insalubre." (Um Conto de Duas Cidades - Charles Dickens

"(...) Fomos parar em um centro de adoção em Sibiu, na Transilvânia. Ali já nos esperavam com café, cigarros, água mineral, e toda a papelada pronta, bastando apenas escolher a criança.Nos levaram até um berçário, onde fazia muito frio, e eu fiquei imaginando como é que podiam deixar aquelas pobres criaturas em tal situação. Meu primeiro instinto foi adotar todas, levar para nosso país onde havia sol e liberdade, mas claro que isso era uma idéia maluca. Passeamos entre os berços, escutando choros, aterrorizados pela importância da decisão a tomar." (A Bruxa de Portobello - Paulo Coelho).

E aí? Conseguem ver a diferença?

Mudança de estilo.

"Baixando a cabeça, aterrorizado, meu olhar automaticamente percorreu a parte interna de suas coxas nuas e retesadas - quão lisas e muscolosas suas pernas se haviam tornado! Ela continuava a me contemplar fixamente com aqueles seus olhos cinza de vidro enfumaçado, ligeiramente injetados de sangue, e através deles vi passar, sub-reptício, o pensamento de que talvez, ao fim e ao cabo, Mona tivesse razão, e que a órfã Lô podia me denunciar sem que ela própria fosse punida" (Lolita - Vladimir Nabokov).

"O prive da alameda Franca, nos Jardins, foi a minha escolha. Eu não sabia fazer nada, nem tinha experiência ou segundo grau completo. Para sair de casa, teria que pagar para ver - e ganhar os tais mil reais pelo que fizesse. O preconceito foi embora e eu disse: “Vou ter que ser isso”. E, confesso: fantasiei muito com a possibilidade de ter vários homens e comecei a gostar da idéia. Afinal, só tinha transado seis vezes, de modo bem mecânico, e nunca tinha visto um filme pornô na minha vida. Ia ser a chance de descobrir até onde o sexo podia me levar." (O Doce Veneno do Escorpião - Bruna Surfistinha).

Não sou um "purista", acho extremamente interessante certos livros que apenas "contam histórias" - O Código da Vinci, livros policiais - o problema é ficar apenas neles e não dar um passo adiante.

Vejo alguns de meus alunos devorando livros do estilo "Crepúsculo"; "Harry Potter" e afins, acho ótimo. Graças a estes tipos de livros a "nova geração" lê mais que a passada. Mas também me preocupo; noto uma espécie de "condicionamento literário", um vício por livros de ritmo frenético e narrativas cruas e diretas.

Não há razão para tal condicionamento, a leitura deve ser estimulada em todos os níveis. Ao ver alguém com "Harry Potter" nas mãos, não o desmereça (até porque são livros realmente bons de se ler), demonstre interesse e no fim deixe alguma indicação de uma leitura um pouco mais densa (Senhor dos Anéis, talvez?).

O fato é que lemos pouco e o pouco que lemos carece de profundidade. Mas já é um começo, antes uma piscina rasa que uma poça de lama.

Mas que fique claro: leitura rasa pode ser um COMEÇO mas não deve ser um FIM.