segunda-feira, abril 06, 2009

Literatura e "literatura"

Após uma exaustiva maratona de correção de provas consegui um tempo para ler. Mal comecei e veio a idéia: uma crônica sobre Literatura e "literatura"; espero que fique clara a intenção de não ofender, bem como a de não agradar...

Segue a dita.

Muita gente esquece que um romance não é apenas uma história, na verdade a diferença entre a boa e a má literatura reside neste pequeno detalhe: a boa literatura conta uma história e nos delicia com uma combinação de palavras que toca alma (ou pelo menos nos dá um prazer visual); enquanto a má literatura apenas conta uma história (quando muito).

Esclarecimento: Quando digo "literatura" entendam como "romance".

Segue.

Uma vez me disseram que exemplos são mais eficazes que conceitos, portanto:

"Uma névoa úmida vagaava, desamparada, dos vales para o cimo da montanha, parecendo um espírito atormentado buscando inutilmente o repouso. Uma pegajosa e fria névoa, que se propagava com lentidão pelo ar em ondas sucessivas como as de um mar insalubre." (Um Conto de Duas Cidades - Charles Dickens

"(...) Fomos parar em um centro de adoção em Sibiu, na Transilvânia. Ali já nos esperavam com café, cigarros, água mineral, e toda a papelada pronta, bastando apenas escolher a criança.Nos levaram até um berçário, onde fazia muito frio, e eu fiquei imaginando como é que podiam deixar aquelas pobres criaturas em tal situação. Meu primeiro instinto foi adotar todas, levar para nosso país onde havia sol e liberdade, mas claro que isso era uma idéia maluca. Passeamos entre os berços, escutando choros, aterrorizados pela importância da decisão a tomar." (A Bruxa de Portobello - Paulo Coelho).

E aí? Conseguem ver a diferença?

Mudança de estilo.

"Baixando a cabeça, aterrorizado, meu olhar automaticamente percorreu a parte interna de suas coxas nuas e retesadas - quão lisas e muscolosas suas pernas se haviam tornado! Ela continuava a me contemplar fixamente com aqueles seus olhos cinza de vidro enfumaçado, ligeiramente injetados de sangue, e através deles vi passar, sub-reptício, o pensamento de que talvez, ao fim e ao cabo, Mona tivesse razão, e que a órfã Lô podia me denunciar sem que ela própria fosse punida" (Lolita - Vladimir Nabokov).

"O prive da alameda Franca, nos Jardins, foi a minha escolha. Eu não sabia fazer nada, nem tinha experiência ou segundo grau completo. Para sair de casa, teria que pagar para ver - e ganhar os tais mil reais pelo que fizesse. O preconceito foi embora e eu disse: “Vou ter que ser isso”. E, confesso: fantasiei muito com a possibilidade de ter vários homens e comecei a gostar da idéia. Afinal, só tinha transado seis vezes, de modo bem mecânico, e nunca tinha visto um filme pornô na minha vida. Ia ser a chance de descobrir até onde o sexo podia me levar." (O Doce Veneno do Escorpião - Bruna Surfistinha).

Não sou um "purista", acho extremamente interessante certos livros que apenas "contam histórias" - O Código da Vinci, livros policiais - o problema é ficar apenas neles e não dar um passo adiante.

Vejo alguns de meus alunos devorando livros do estilo "Crepúsculo"; "Harry Potter" e afins, acho ótimo. Graças a estes tipos de livros a "nova geração" lê mais que a passada. Mas também me preocupo; noto uma espécie de "condicionamento literário", um vício por livros de ritmo frenético e narrativas cruas e diretas.

Não há razão para tal condicionamento, a leitura deve ser estimulada em todos os níveis. Ao ver alguém com "Harry Potter" nas mãos, não o desmereça (até porque são livros realmente bons de se ler), demonstre interesse e no fim deixe alguma indicação de uma leitura um pouco mais densa (Senhor dos Anéis, talvez?).

O fato é que lemos pouco e o pouco que lemos carece de profundidade. Mas já é um começo, antes uma piscina rasa que uma poça de lama.

Mas que fique claro: leitura rasa pode ser um COMEÇO mas não deve ser um FIM.

4 comentários:

Paolelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paolelli disse...

Semi-concordo. O estilo de leitura hoje pode estar mudando. É o estilo mais rasteiro, direto e informativo. Confesso que se lesse "Senhora" hoje, não passaria do 3o capítulo. Ao passo que sem a "leitura densa", a capacidade de interpretação, até de uma simples figura de linguagem, fica diminuta.

Por que non te callas, Duda?

Eduardo Martins disse...

Pelo que pude entender do comentário o Paolelli não "semi-concorda" e sim concorda por inteiro :p

Obs. O "Por que non te callas" embaixo é o blog do digníssimo e não uma mensagem direta a mim, o link está disponível na seção "Leio e Recomendo" deste blog.

Camila disse...

Gostei do contraste(Surfistinha com Nabokov é demais!). Auto-explicativo. Mas tens razão, acho que a leitura(por pior que seja) sempre acresce alguma coisa, nem que seja ortografia e regras de pontuação. Concordo que não deve ser desestimulada. Infelizmente, o desestímulo não seria em relação ao conteúdo do livro, mas ao ato de ler. Resultado: em vez de fechar o Harry Potter e abrir o Dostoievski, fecharia-se o Harry para ligar no BBB. Sendo assim, viva o Harry!